Experiências Éticas

planeta

Já há algum tempo, a moda é falar que devemos trabalhar em negócios que estejam alinhados com o nosso propósito. Traduzimos isso como alguma coisa que nos faça feliz e tenha relação com nossa forma de ver a vida, o mundo e tudo mais do entorno.Vejo isso como uma postura romântica de um novo ser humano que busca fazer o que gosta, com pessoas que gosta, com o engajamento que procura e com a vontade de realizar projetos que são politicamente corretos e aprovados por uma sociedade cheia de angústias e antagonismos.

É uma postura legal perante a vida, mas é efêmera em seus resultados efetivos. Fica tudo muito no racional, com contornos dogmáticos e, por vezes, acompanhada de um pensamento cético de conveniência.O que nos faz sentir vivos é ainda o aspecto empirista da vida. Sem experimentar nossos conceitos, ainda somos apenas potência e não ato. É vivendo o nosso propósito na prática que podemos encontrar verdadeiros referenciais que atuam como motores imóveis nos colocando em círculos virtuosos e/ou viciosos de nossa trajetória.

Ao ouvir uma sinfonia de Mozart, podemos apenas gostar ou se inspirar e virar músico. Mozart nada fez, diretamente, para que você mudasse e se engajasse em ser um músico. Ele atua como motor imóvel de sua trajetória. Foi através do seu legado que você acabou se motivando e seguindo o seu itinerário. Você vai chamar isso de propósito, de talento e seguir em frente.

É assim com a ética. Sem um motor imóvel que lhe dê referenciais, você apenas teoriza, dogmatiza e se torna cético em relação ao tema. O Brasil, infelizmente, passou 40 anos (1964/2004) sem o estudo estruturado da ética e moral. A filosofia foi banida das escolas durante o regime de ditadura. Tudo o que aprendemos sobre ética, na sua maioria, foram valores familiares baseados nos dogmas cristãos e nos preceitos militares de bom cidadão.

Definitivamente isso não tem nada a ver com ética e moral. Quando estudamos a ética, na sua origem, podemos aprender com Platão, Aristóteles, Agostinho, Espinosa, Hume, Kant e assim por diante, percebendo sua riqueza, sua evolução nos tempos e seu significado real. É a partir desses conceitos, às vezes antagônicos, que podemos criar a compreensão real sobre os conceitos e significados. Esses filósofos acabam sendo o motor imóvel que precisamos para experimentar viver de forma que a ética esteja presente em nossas vidas.

Entendo que não “somos” éticos e sim “estamos” éticos em vários momentos da nossa vida. Principalmente naqueles em que experimentamos uma postura ética em relação ao outro. Isso mesmo, a ética é antes de tudo a prática da alteridade. Sem o outro (pessoa, animais, natureza) não existe, efetivamente, a ética.

A ética é, sobretudo, a nossa intenção genuína, virtuosa de fazer o bem com características universais, procurando na prática agir de forma a levar felicidade para todos. Como não conseguimos fazer isso o tempo todo, quando “estamos” éticos, devemos agir com esses princípios.A experiência ética é sublime quando observamos que conseguimos melhorar e/ou modificar uma situação de infelicidade que o outro está passando, para uma perspectiva de felicidade e de melhoria substancial. A recompensa de experiências éticas é o sentimento de estarmos evoluindo como seres humanos e conseguindo praticar a teoria, a crença, mitigando o ceticismo.

Com o tempo, vamos nos tornando “motores imóveis” de várias pessoas que observarão que nossas práticas não são para terminar com as mazelas humanas, mas sim para iniciar um processo evolutivo da espécie em busca do bem comum e universal. Ética é, acima de tudo, o desejo e a ação de tornar o mundo um lugar de bem apenas pelo prazer de fazer o bem.

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